
Uma missão fundada à beira de um lago em 15 de outubro de 1718, que virou Vila de Ega, perdeu 95% do território para dez municípios novos e hoje é o quinto maior do Amazonas. Esta é a história do município, contada a partir do acervo da própria cidade.
Tefé fica no coração do Amazonas, na região do Médio Solimões, a cerca de 520 quilômetros de Manaus em linha reta. Não há estrada que ligue as duas cidades: chega-se a Tefé de barco, subindo o Solimões, ou de avião.
A cidade ocupa uma península formada pelo igarapé Xidarinim e pelo lago de Tefé — uma baía larga de água escura, margeada por praias de areia branca e fina que aparecem na vazante. A península é plana ao norte e a leste, e acidentada ao sul e a oeste. Foi essa geografia que decidiu o lugar da fundação, em 1718: o lago pela frente, o igarapé de um lado e dois braços d'água que, na cheia, transformavam o terreno em ilha.
O município faz divisa com Coari, Carauari, Alvarães, Maraã e Tapauá. Além do Solimões, é cortado pelos rios Tefé, Curumitá de Baixo, Curumitá de Cima, Arabauá e Caiambé, e por uma malha de igarapés, furos, paranás e chavascais.
O clima é equatorial quente e úmido, de chuva abundante o ano inteiro. A estiagem — que em Tefé se chama verão — vai de agosto ao fim de outubro. O livro registra que a alta pluviosidade, os ventos alísios vindos do Atlântico e a queda de pressão à noite tornam o calor suportável.
O naturalista inglês Henry Bates, que morou onze anos na cidade sem adoecer uma vez, resumiu o assunto em três palavras: “a glorious climate”.

O nome da cidade não veio de Portugal nem de um santo. Veio do povo que já morava no terreno onde a missão foi plantada.
O nome da cidade vem do povo que morava no terreno onde ela foi fundada: os Tupebas, também grafados Tapibás. Desde o começo os indígenas chamavam a missão ora Tapi, ora Tepé, encurtando a palavra Tupeba.
Dessa contração saiu a cadeia que o livro registra e que explica a grafia de hoje. Nenhuma das formas foi imposta por decreto — todas foram uso corrente antes de virarem papel.
Em 1759, quando a missão virou vila, a Carta Régia obrigava a dar-lhe nome português. O governador Joaquim de Melo e Póvoas escolheu Ega, em homenagem a uma vila do Douro Alto, em Portugal. O nome oficial durou quase um século, mas o povo continuou dizendo Tefé.
Em 1830 a vila voltou a se chamar Tefé; em 1841 uma lei provincial do Pará restabeleceu Ega; e em 15 de junho de 1855 a Resolução nº 44 fixou de vez cidade de Tefé. O projeto original propunha “cidade Nova de Teresina” — foi uma emenda do deputado João da Cunha Correa que devolveu à cidade o nome que ela já tinha na boca de todo mundo.

Nenhuma história de Tefé começa em 1718. Ela começa nas centenas de nações indígenas que ocupavam o Solimões e o Japurá — e no que lhes aconteceu.
Antes de qualquer missão, o Médio Solimões era território indígena denso. Pelos registros dos missionários jesuítas, carmelitas e espiritanos, existiam cerca de 312 nações indígenas entre o rio Napo, no Peru, e a foz do Amazonas, somando mais de três milhões de pessoas.
Na área do futuro município viviam, entre outros, os Cambebas — chamados Cabeças Chatas —, Omáguas, Auxiuaris, Ybamomas, Sorimãs, Jumas, Jurys, Miranhas, Katuquinas, Passés, Canamarys, Muras, Ticunas, Curicicuris, Yurimaguas e os Tupebas, que deram nome à cidade. No Japurá havia uma cidade indígena, Mapiri; da boca do Juruá até Coari estendia-se o império Machiparo, que reunia várias nações.
O livro não suaviza o que veio depois. Descreve o resgate e o descimento, a correria e a agarração, os currais de pau a pique onde as pessoas capturadas eram guardadas antes da venda, e os suplícios. E conclui, com todas as letras: “foi nesta região onde se deu o maior genocídio da população indígena da Amazônia”.
O resultado foi o despovoamento do Japurá e do Alto Solimões, a fuga de nações inteiras para as cabeceiras dos rios e a miscigenação forçada que formou o caboclo amazônico. Em levantamento de 2001, restavam 23 aldeias com 2.773 indígenas na região — quase todas em municípios que já pertenceram a Tefé.
Frei Manoel da Esperança aprendeu com os Jumas, no rio Juruá, o processo de extração do látex — a base de dois ciclos econômicos inteiros da Amazônia.
A mandioca e o modo de fazer a farinha vieram dos povos originários. É o produto que até hoje leva o nome de Tefé para fora do Amazonas.
Os plantios de cacau na várzea e os castanhais na terra firme, hoje tidos por nativos, foram deixados por povos indígenas que os cultivavam.
Quina, unha-de-gato, andiroba, copaíba, puxuri, jambu, cambará, imbaúba — o repertório medicinal em uso na cidade é herança direta.
Curare, timbó e assacu anestesiam o peixe sem contaminar a carne. É conhecimento químico transmitido, não improviso.
A rede de dormir, a canoa, o remo, o tupé, o tipiti, o paneiro, a cuia — e o banho diário, que os viajantes europeus registraram como novidade.
Dois missionários, duas coroas e três mudanças de lugar até a cruz ser plantada no terreno que a cidade ocupa até hoje.
A primeira missão da região foi espanhola. Em 1688, o jesuíta austríaco Samuel Fritz fundou a Missão de Santa Teresa d'Ávila dos Axiuaris, na barra do rio Tapi, num lugar que os indígenas chamavam Tambaqui-Paratu — a atual Vila Valente. Fritz era alto, ruivo, de longas barbas, sotaina gasta e alpercatas de couro, e ficou conhecido como o Apóstolo do Amazonas. Preso em Belém como espião em 1689, solto no ano seguinte, retirou-se para Quito em 1705.
Em 1709 o padre João Batista Sanna, à frente de oitenta soldados espanhóis, destruiu as missões carmelitas de Tefé a Tabatinga. A resposta portuguesa veio em 14 de outubro do mesmo ano, com a expedição do sargento-mor José Antunes da Fonseca — 130 soldados, 300 flecheiros e 600 indígenas em 21 canoas. Sanna foi preso e deportado para Goa.
Coube ao carmelita português frei André da Costa recolher os sobreviventes, em 1710, na ilha de Suassutuba. Como o terreno alagava todo ano, em 1712 ele transferiu o grupo para a tapera da antiga missão de Fritz. Mas o lugar continuava exposto aos ataques das tropas de resgate, dos comerciantes de escravos e dos piratas do Solimões.
Frei André subiu então o rio Tapi e escolheu, na margem oriental do lago, um terreno plano e cheio de castanheiras, onde já vivia uma pequena aldeia dos Tupebas. Tinha o lago pela frente, o igarapé Xidarinim — “piranhas pequenas” — do lado direito e dois igarapés atrás, que na enchente fechavam uma ilha. Havia vigias na aldeia dos Axiuaris e na boca do furo do Abial para dar aviso de qualquer ataque.
No dia seguinte à decisão, os moradores embarcaram nas igarités, subiram o rio e se juntaram aos Tupebas que os esperavam na praia. Frei André mandou plantar uma grande cruz no centro da taba, ergueu um pequeno altar de madeira e ali celebrou a primeira missa, em agradecimento a Santa Teresa. Era 15 de outubro de 1718.
Foi neste pequeno arraial, muito disputado, que se alicerçou, definitivamente, a posse da Amazônia pela Coroa Portuguesa, nesta região do Alto Solimões.





Tefé tem mais de uma data de nascimento, e todas são defensáveis. O próprio autor do livro considera Samuel Fritz e frei André da Costa, juntos, os fundadores da cidade.
Cinco séculos em sete eras, do Tratado de Tordesilhas à seca que secou três quartos do lago.
Antes de existir Tefé, o Médio Solimões já era disputado no papel. Duas coroas dividem a América entre si, e as expedições chegam para conferir o que assinaram.
Portugal e Espanha traçam no mapa uma linha a 370 léguas de Cabo Verde. Toda a Amazônia Ocidental cai do lado espanhol.
A expedição enfrenta Cambebas, Omáguas e Axiuaris. Em 23 de junho, o combate que o cronista frei Gaspar de Carvajal atribui às “amazonas” dá nome ao rio.
Quarenta e sete canoas, 1.200 remeiros e 70 soldados sobem o rio para garantir a posse portuguesa. Em 1638 Teixeira visita a “Aldeia do Ouro”, na costa de Tefé.
Missão de Santa Teresa d'Ávila dos Axiuaris, na barra do rio Tapi — a semente espanhola do que viraria Tefé.
O padre Sanna destrói as missões carmelitas de Tefé a Tabatinga; a expedição de José Antunes da Fonseca o prende e o deporta.
Depois de dois anos na ilha de Suassutuba, o grupo é levado para a tapera da missão de Fritz.
Nasce o arraial que virou cidade. Em quarenta anos ele ganha três ruas, igreja, cemitério e a primeira escola pública da região.
Frei André da Costa planta a cruz, ergue o altar e celebra a primeira missa no terreno dos Tupebas, na margem oriental do lago.
Frei Antônio de Andrade é morto pelos Jumas no lago Copacá. A missão troca de administrador cinco vezes em doze anos.
A partir daqui, frei Matias funda a Missão de Mariuá — a futura Barcelos, primeira capital da Capitania.
O chefe da comissão da Academia de Ciências de Paris, que veio medir a circunferência da Terra, para dois dias em Tefé.
O princípio do uti possidetis — quem ocupa, possui — legitima a presença portuguesa e sepulta a linha de Tordesilhas.
Criada na administração de frei José de Santa Teresa Ribeiro, o último missionário administrador.
A missão vira vila, o município nasce com 500 mil km² e a fronteira ainda troca de mãos: entre 1785 e 1790 Ega chega a ser capital de uma governação espanhola.
A missão é elevada a Vila de Ega, com 495 habitantes e um território de 500.000 km². No ano seguinte instala-se a Câmara Municipal.
O ouvidor Ribeiro de Sampaio encontra a vila tomada pelo mato, a igreja em ruínas e as casas sem portas nem janelas. Impõe um programa de obras.
O brigadeiro Francisco Requena ocupa a vila e a torna capital de uma comandancia de gobernación do Peru. Deixa-a urbanizada, com cinco ruas e professores de quatro línguas.
Manoel da Gama Lobo D'Almada expulsa os espanhóis e fecha a fronteira com a ocupação do Forte de Tabatinga.
Spix e Martius e D'Orbigny pesquisam botânica e etnografia em Tefé e no Japurá.
Em 7 de agosto, José Patrício de Sant'Ana lê na Câmara a proclamação que devolve a vila à ordem legal.
Criação de Coari — a primeira das sete amputações que reduziriam o município a menos de 5% do tamanho original.
Criada pela Lei nº 26, com sede em Ega. Instalada em 1855, sob o juiz Félix Gomes do Rego.
A vila vira cidade, a borracha traz o primeiro fluxo de imigrantes e a cidade passa a receber cientistas, cônsules e comerciantes de meio mundo.
A Resolução nº 44 eleva a vila à categoria de cidade e devolve o nome indígena. É a data do aniversário do município.
O poeta, na função de inspetor, encontra boa frequência — exceto de agosto a dezembro, quando as crianças iam para as praias fazer manteiga de ovos de tartaruga.
Louis Agassiz passa nove meses pesquisando os lagos vizinhos e identifica mais de 1.800 espécies de peixes amazônicos.
Antônio Von Hoonholtz assina o Termo de Paz Soldan-Hoonholtz, resolvendo a fronteira com o Peru, e recebe de D. Pedro II o título que leva o nome da cidade.
A grande seca do Nordeste empurra milhares de nordestinos para os seringais do Tefé, Juruá, Japurá e Solimões. A partir de 1882 chegam sírios, libaneses, judeus e portugueses.
Terceiro desmembramento, pela Lei nº 92. Em 1894 sai São Felipe, atual Eirunepé.
Os missionários da Congregação do Espírito Santo fundam a missão no Sobradinho e, no ano seguinte, o Asilo Orphanológico — a base do que viria a ser a rede escolar da cidade.
Em setenta anos Tefé ganha catedral, hospital, mercado, luz, telefone, rádio, aeroporto — e, de uma vez, os bairros que a triplicaram de tamanho.
Pio X erige a Prefeitura Apostólica de Tefé. Monsenhor Alfredo Barrat chega em novembro e instala estaleiro, olaria, serraria, curtume e moinho.
Inauguram-se o Hospital da Misericórdia, o Mercado Municipal, o Colégio Santa Teresa e as duas coletorias de renda. Monsenhor Barrat é nomeado o primeiro prefeito.
Fundado em 19 de junho. O campo foi aberto em mutirão: 200 metros de barranco escavados só com enxada e pá.
Inaugurada em 19 de outubro, treze anos depois da pedra fundamental. Em novembro é eleita a primeira Câmara de Vereadores.
O Paço Municipal é inaugurado, com o nome científico da castanheira. No ano seguinte a Panair do Brasil faz o primeiro voo comercial para a cidade.
Sexto desmembramento, pela Lei Estadual nº 96.
Entra no ar em dezembro. Com o MEB, leva aulas radiofônicas às comunidades e organiza o interior do município.
Três enchentes seguidas — 1969, 1970 e 1971 — expulsam a população da várzea. O prefeito Armando Retto responde com terrenos titulados e material de construção: surgem Monte Castelo, Santo Antônio, Juruá, Olaria e Santa Rosa.
Inaugurado em dezembro, trinta anos depois de a COMARA ser procurada para construí-lo.
O território para de encolher, o ensino superior chega e a política do município passa por um período de crise aberta.
Alvarães e Uarini se emancipam pela Emenda Constitucional nº 12. O município fica com os 23.704 km² que tem hoje.
Bandeira (1972), escudo (1978) e hino (1983) — os três instituídos em pouco mais de dez anos. Em 1993 bandeira e escudo são atualizados por causa dos desmembramentos.
O comando é instalado em Tefé em 1º de janeiro, com a Vila Militar na Estrada dos Expedicionários.
A posse do prefeito eleito termina em depredação e incêndio na Prefeitura e na Câmara. Em 2003 o prefeito é cassado pela Câmara e reempossado por decisão judicial dois dias depois.
A UEA é inaugurada em agosto e começa a atender em Tefé com 340 alunos. Em 2004 é inaugurado o prédio do Centro de Estudos Superiores de Tefé.
Professores, artistas e pesquisadores fundam a Academia de Letras, Ciências e Artes de Tefé.
No sesquicentenário da elevação a cidade, Protásio Lopes Pessoa publica a história do município — a obra que sustenta esta página.
Depois do livro: o ensino técnico federal chega, a população passa de 70 mil e o clima cobra a conta com uma cheia recorde e duas secas extremas.
As atividades começam em 1º de abril, um dos quatro novos campi do IFAM no Amazonas. Com a UEA, a UFAM e o CETAM, a cidade consolida-se como polo de ensino do Médio Solimões.
O rio Negro atinge 30,02 m em Manaus, o nível mais alto já registrado. Tefé decreta emergência; cerca de 3.500 famílias da região sofrem com desabastecimento.
O Censo confirma Tefé como o quinto município mais populoso do Amazonas.
O lago encolhe 75%, de 379 km² para 95 km², e a água chega a 40 °C. Entre setembro e outubro são recolhidas 209 carcaças de botos-cor-de-rosa e tucuxis. O ICMBio instaura a “Emergência Botos Tefé”, com apoio técnico do Instituto Mamirauá.
O lago marca 4,54 m em outubro e os 62 municípios do Amazonas entram em emergência. Em março, a Câmara Municipal deixa a rua Olavo Bilac, onde funcionou por 84 anos.
A estimativa do IBGE aponta 80.137 moradores e um território de 23.835,224 km².
Quando nasceu, em 1759, o município de Ega tinha cerca de 500.000 km² — mais do que a Espanha. Ia do rio Purus, pela margem esquerda, até Pedreiras, no Japurá, na fronteira com o Peru e a Colômbia, e incluía os povoados que viriam a ser Tabatinga, São Paulo de Olivença, Coari e outros tantos.
Em pouco mais de dois séculos, sete desmembramentos reduziram esse território a 23.835 km² — menos de 5% do original. Cada município novo do Médio e Alto Solimões saiu, direta ou indiretamente, de Tefé.

| Ano | Habitantes | Proporção | Observação |
|---|---|---|---|
| 1759 | 495 | 36 brancos, 10 escravizados e 449 indígenas, na criação da Vila de Ega | |
| 1850 | 1.200 | em 107 casas, no registro de Henry Bates | |
| 1936 | 15.236 | no município; a cidade tinha 1.300 moradores e 210 habitações | |
| 1970 | 19.173 | queda explicada pelos desmembramentos: o município perde território e gente | |
| 1980 | 30.743 | primeiro censo depois da explosão urbana de 1969–1971 | |
| 2000 | 64.457 | 47.698 na cidade e 16.759 na zona rural, em 13.873 casas | |
| 2022 | 73.669 | Censo IBGE — 5º município mais populoso do Amazonas | |
| 2025 | 80.137 | estimativa IBGE |
A economia de Tefé foi, por quase três séculos, uma sucessão de ciclos extrativos. Primeiro as drogas do sertão — cacau silvestre, salsaparrilha, cravo, baunilha, copaíba, puxuri, anil. Depois a manteiga de ovos de tartaruga e as banhas de peixe-boi e de tucuxi, que desciam para Belém e de lá seguiam para as máquinas da Inglaterra e da Alemanha. Depois a borracha, em dois ciclos: 1877–1913 e 1940–1950. Depois o pirarucu, a castanha, a madeira e as peles.
O que amarrava tudo isso era o aviamento: um crédito em cadeia que ia da casa exportadora de Manaus à casa aviadora da cidade, dela ao barracão do seringal e, por fim, ao seringueiro, que recebia mercadoria adiantada e só acertava contas no fim da safra. Quase nunca sobrava saldo. Nas feitorias de pirarucu, os mariscadores passavam de oito a nove meses fora de casa enquanto a família comprava fiado na cidade.
Todos os sistemas de extrativismo trouxeram apenas atraso ao município, porque estas atividades tiravam os trabalhadores para atuarem em atividades fora do local de morada, impedindo-os de se ocuparem em uma atividade que produzisse economia contínua, como a agricultura, a pecuária e outras.


Canela, salsaparrilha, cacau silvestre, baunilha, cravo, anil e pimenta colhidos na floresta. Todos os meses desciam de Ega para Belém canoas de 24 toneladas.
A manteiga de ovos de tartaruga descia em toras de árvore ocas e era a principal ocupação do comércio. Em 1854 faziam-se por ano cerca de cinco mil arrobas de pirarucu e três mil potes de manteiga.
A grande seca do Nordeste traz milhares de nordestinos; a partir de 1882 chegam sírios, libaneses, judeus e portugueses, que assumem o comércio da cidade.
A guerra reabre o mercado e traz os soldados da borracha. Depois de 1945 o produto perde valor na região e o ciclo se encerra.
As feitorias de pesca e os castanhais de Caiambé, Catuá, Jutica e Marajó sustentam a economia até a lei da Caça e Pesca encerrar o aviamento do pescado.
O município não tem indústria de porte. A economia é de comércio e serviços, agricultura familiar — a farinha de Tefé é conhecida fora do estado — e, desde os anos 1990, o manejo sustentável do pirarucu implantado pelo Instituto Mamirauá.


De La Condamine ao Instituto Mamirauá: três séculos de gente vindo estudar este pedaço do Solimões — e ficando.
Poucas cidades do interior da Amazônia foram tão observadas por cientistas quanto Tefé. A posição na confluência do Solimões, do Japurá e do rio Tefé fez dela parada obrigatória de expedições durante três séculos — e cada uma deixou registro escrito da cidade que encontrou.
Essa vocação não é só passado. Desde 1999 o Instituto de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá, vinculado ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações, tem sede em Tefé. Nasceu das pesquisas do primatólogo José Márcio Ayres sobre o macaco uacari e hoje atua em trinta unidades de conservação da Amazônia, com foco nas reservas Mamirauá e Amanã. Foi ali que se desenvolveram os sistemas pioneiros de manejo do pirarucu, de manejo florestal e de turismo de base comunitária que hoje são referência na Amazônia.

Chefe da comissão da Academia de Ciências de Paris que veio medir a circunferência da Terra. Parou duas vezes em Tefé e registrou em Caiambé a lenda da chefe Caiamé.
Os naturalistas alemães fizeram pesquisas de botânica e etnografia em Tefé e passaram longas semanas no Japurá.
O naturalista inglês escolheu Tefé para estudar geografia, climatologia e zoologia, e ficou onze anos. Registrou 107 casas e 1.200 habitantes em 1850, e escreveu “O Naturalista do rio Amazonas”.
O poeta veio como inspetor de escolas. Anotou boa frequência, exceto entre agosto e dezembro, quando as crianças acompanhavam as famílias às praias.
Passou nove meses estudando os peixes dos lagos vizinhos e identificou mais de 1.800 espécies amazônicas. Achou Tefé “a cidade mais hospitaleira da América do Sul”.
Sede em Tefé, vinculado ao MCTI. Pesquisa, manejo e monitoramento em trinta unidades de conservação — e os alertas de estiagem e de aquecimento da água do Médio Solimões.
Duzentos e dez anos para chegar a 210 casas — e três anos para dobrar de tamanho, depois que a água expulsou o interior da várzea.
Por quase dois séculos, a cidade quase não cresceu. Em 1759 tinha três ruas: uma acompanhando o lago e duas transversais. Em 1790, quando o brigadeiro Requena devolveu a vila urbanizada, eram cinco. Por volta de 1900 havia 17 quarteirões, seis ruas ao longo do lago e seis transversais, até a rua Monteiro de Souza — dali para a frente era a Campina, campo de pastagem fechado por arame farpado. As casas eram 190, de taipa e tijolo, cobertas de palha ou de telha de Marselha.
Em 1936 o professor Teodolino de Souza contou 20 quarteirões e apenas 210 habitações, com cinco prédios de dois pisos na cidade inteira. Foi ele quem chamou Tefé de “Princesa do Solimões”, apelido que o Hino municipal consagraria décadas depois. Até 1950 o perímetro urbano ainda parava na Monteiro de Souza.
A explosão veio de uma vez, no fim dos anos 1960, e por um motivo climático. Três enchentes seguidas — 1969, 1970 e 1971 — destruíram plantações e criações da várzea, e o preço de todos os produtos do extrativismo despencou junto. A população do interior desceu para a cidade.
O prefeito Manoel Armando da Silva Retto respondeu concedendo terrenos titulados e material de construção. Em três anos nasceram Monte Castelo, Santo Antônio, Olaria, Juruá I e II e Santa Rosa; a Campina foi loteada e o centro urbano se estendeu até a Marechal Deodoro. Depois vieram Santa Luzia, Jerusalém, Fonte Boa, Nossa Senhora de Fátima, Santa Teresa, Mutirão, São João, São Raimundo e Nova Esperança. Em 2005 a cidade tinha o centro e mais dezesseis bairros, somando 3.182 habitações.





A parte mais rara do acervo: em 2003, o autor do livro voltou aos mesmos pontos de fotografias de 1940 e 1969 e refez o enquadramento. Seis lugares da cidade, com meio século de diferença entre uma foto e outra.
O casario da orla visto do lago — o mesmo trecho, com 63 anos de diferença.


A rua onde se concentrava a maior parte do comércio da cidade.


Formada pelo aterro sucessivo das nascentes do igarapé da Intendência, iniciado por volta de 1930.


O trecho que o loteamento da Campina, no fim dos anos 1960, mudou por completo.


Um dos bairros abertos para receber a população que desceu da várzea depois das enchentes de 1969 a 1971.


O porto que abastece a cidade e conecta o município às comunidades do rio.


Música desde a primeira missa, um festival que já reuniu oitenta cordões e um artesanato que é, quase todo ele, tecnologia indígena.
A música chegou junto com a missão: os primeiros missionários a usavam como parte da instrução. Em 1780 frei Caetano Brandão ouviu as índias de Ega cantarem o tantum-ergo “com tanta perfeição que lhe causou admiração”. Em 1841 o oficial inglês Lister Maw registrou que o povo se sentava à porta de casa nas tardes para ouvir violão, guitarra, violino, banjo, flauta e bandolim — instrumentos fabricados pelos artesãos da própria cidade — e que havia uma banda de sopro bem ensaiada tocando na praça.
A Escola Oficial de Música do Município é de 1901. A Banda Harmonia de Santa Cecília, criada por Monsenhor Barrat com mais de trinta instrumentos de sopro, funcionou por meio século, com escola de solfejo e composição no Seminário e um coral de moças da cidade.
O Festival Folclórico nasceu de uma quermesse em benefício do Hospital São Vicente e virou o maior evento do calendário. Organizado a princípio pelas Damas de Caridade e depois por Domingos Franco de Amorim, o Moreno, ficou conhecido como “Festão do Povo” antes de o MEB assumi-lo, em 1965. Nos anos 1970 chegou a reunir oitenta cordões. As apresentações se fixaram em 27, 28, 29 e 30 de junho, encerrando com a procissão de São Pedro e a participação de todas as embarcações do porto.
O folclore tefeense mistura quatro origens: portuguesa (barqueiro, imperial, lanceiro, quadrilha), indígena (as lendas do currupião, do curupira e do bicho-folharal), nordestina (boi-bumbá) e religiosa (pastorinha, pastoral). E tem criações próprias — a Ciranda, nascida de uma rivalidade entre Nogueira e Tefé, e a Afro-América, criada em 1988 por professoras da Escola São José nos cem anos da Abolição.
O artesanato vem quase todo da tradição indígena: redes, maquiras, tupés, esteiras, tipitis, peneiras, remos, flechas, arcos, zarabatanas, puçás, cuias, alguidares, moringas, cumatás, paneiros, cestos, cocares, potes, canoas e igarités. Dos europeus veio a renda de almofada e bilro.
As técnicas estão registradas. A cuia era limpa, seca, pintada com tinta de macucu e posta de borco por cerca de dez horas sobre um metro quadrado de cinza molhada, para depois ser enfeitada com desenhos de urucu. A cerâmica usava barro sem areia misturado ao careipé, um cimento vegetal extraído da casca de uma árvore, e era pintada com tauá, curi e tabatinga antes da queima.



Até 1972 o município não tinha nenhum símbolo próprio. Os três — bandeira, escudo e hino — foram criados em pouco mais de dez anos, e dois deles saíram de concursos públicos abertos pelo prefeito Armando Retto.

Três faixas horizontais de igual largura — verde pela floresta, branca pela paz e amarela — atravessadas ao centro por um triângulo equilátero azul, a cor do céu, com as cinco estrelas do Cruzeiro do Sul. Cada estrela representa uma localidade do município. Depois dos desmembramentos de 1981, as estrelas apontavam para cidades que já não eram de Tefé; a Lei nº 281, de 1993, corrigiu a atribuição — hoje são a sede, a Missão, Santo Isidoro, Caiambé e a Agrovila.
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No alto, o chefe triangular azul com o Cruzeiro do Sul, representando Deus, Pátria e Família. No campo branco, a castanheira. A faixa amarela ondulada que corta o escudo é o rio Solimões, e traz a inscrição Bertholletia excelsa — o nome científico da árvore. Na base, o verde da floresta. Envolvendo tudo, o listel amarelo com a data da elevação à cidade e o nome do município.
O listel do escudo traz 15 de junho de 1885 — e a mesma data aparece na reprodução impressa no livro de 1978. A elevação de Ega à categoria de cidade, porém, é de 15 de junho de 1855, pela Resolução nº 44. O escudo oficial carrega o erro de trinta anos desde que foi instituído.
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A castanheira — Bertholletia excelsa — é o símbolo adotado pelo município. Está no escudo, dá nome ao Paço Municipal, o Palácio Bertholetia Excelsa, e sustentou boa parte da economia do interior: a safra da castanha vai de dezembro a maio, e os castanhais de Caiambé, Catuá, Jutica, Marajó e Japurá foram por décadas centros de produção.
Boa parte desses castanhais, hoje tidos por nativos, foi deixada pelos povos indígenas que os cultivavam na terra firme antes de qualquer missão.
Ilustração criada para o portal com apoio de IA, no estilo das pranchas de naturalista do século XIX.
Aos apelos da voz do passado, nossas almas erguidas de pé.
Vem cantar-te num peito sagrado, oh cidade gentil de Tefé.
Tua história de lutas ingentes, foi um facho de vivo clarão.
A brilhar sobre as matas virentes, neste vasto e formoso rincão.
Do Amazonas Comuna altaneira. És Princesa do rio Solimões.
Salve, Salve Tefé sobranceira. Tens os nossos fiéis corações.

Tefé é hoje o principal polo de saúde, educação e comércio do Médio Solimões, atendendo a uma região de municípios que dependem dela para consulta especializada, ensino superior e abastecimento.
O ensino superior público chegou em 2001, com o Centro de Estudos Superiores de Tefé, da Universidade do Estado do Amazonas. Vieram depois a UFAM, o CETAM e, em 2014, o campus do Instituto Federal do Amazonas, com cursos técnicos, graduação em Pedagogia e pós-graduação a distância em parceria com a UAB.
A cidade também é sede do Instituto de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá, uma unidade de pesquisa do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações — o que faz de Tefé um dos centros de pesquisa em conservação mais importantes da Amazônia brasileira.
Os últimos anos foram marcados por eventos climáticos extremos. Em 2021, a maior cheia já registrada no Amazonas levou o município a decretar emergência. Em 2023, a seca reduziu o lago de Tefé em 75% e a água chegou a 40 °C: entre setembro e outubro foram recolhidas 209 carcaças de botos-cor-de-rosa e tucuxis, um evento de mortalidade sem precedentes para essas espécies, que levou o ICMBio a instaurar a “Emergência Botos Tefé”. Em 2024 a seca se repetiu, ainda mais severa, com todos os 62 municípios do estado em emergência.

Tefé fica no estado do Amazonas, na região do Médio Solimões, a cerca de 520 quilômetros de Manaus em linha reta. Não há ligação rodoviária com a capital: o acesso é fluvial, pelo rio Solimões, ou aéreo, pelo aeroporto da cidade. O município faz divisa com Coari, Carauari, Alvarães, Maraã e Tapauá.
A cidade foi fundada em 15 de outubro de 1718, quando o carmelita frei André da Costa estabeleceu a Missão de Santa Teresa d'Ávila dos Tupebas na margem oriental do lago de Tefé. Antes disso, em 1688, o jesuíta Samuel Fritz havia fundado nas proximidades a Missão de Santa Teresa d'Ávila dos Axiuaris. O município foi criado em 1759, com o nome de Vila de Ega, e a vila foi elevada à categoria de cidade em 15 de junho de 1855.
O nome vem dos Tupebas, o povo indígena que vivia no terreno onde a missão foi fundada em 1718. Os indígenas chamavam o lugar ora Tapi, ora Tepé, encurtando a palavra Tupeba, e dessa contração saiu a sequência Tapi, Tepé, Tephé, Teffé e, por fim, Tefé. Entre 1759 e 1855 o nome oficial foi Ega, dado por exigência da Carta Régia portuguesa, mas o povo nunca deixou de usar Tefé.
O Censo de 2022 do IBGE registrou 73.669 habitantes, e a estimativa de 2025 aponta 80.137 moradores. Tefé é o quinto município mais populoso do Amazonas, com densidade demográfica de 3,11 habitantes por quilômetro quadrado.
Tefeense. A cidade também é conhecida pelo apelido de Princesa do Solimões, consagrado por um texto do professor Teodolino de Souza, de 1936, e repetido no refrão do Hino municipal.
O aniversário da cidade é 15 de junho, data da Resolução nº 44 de 1855, que elevou a Vila de Ega à categoria de cidade com o nome de Tefé. Já 15 de outubro é o dia da padroeira, Santa Teresa d'Ávila — e também o aniversário da fundação da missão, em 1718. As duas datas são feriado municipal.
O território atual é de 23.835,224 km², segundo o IBGE. Quando o município foi criado, em 1759, ele tinha cerca de 500.000 km²: sete desmembramentos, entre 1848 e 1981, deram origem a Coari, São Paulo de Olivença, Fonte Boa, Eirunepé, Carauari, Maraã, Japurá, Juruá, Alvarães e Uarini.
A bandeira, instituída pelo Decreto/Lei nº 14 de 1972, com três faixas — verde, branca e amarela — e um triângulo azul com o Cruzeiro do Sul; o escudo, pelo Decreto nº 47 de 1978, que traz a castanheira e a inscrição Bertholletia excelsa; e o hino, com poema e música do padre Manuel de Lima Cauper, oficializado pela Lei nº 28 de 1983. A castanheira é a árvore símbolo do município e dá nome ao Paço Municipal, o Palácio Bertholetia Excelsa. Uma curiosidade: o listel do escudo traz a data de 15 de junho de 1885, embora a elevação de Ega à categoria de cidade seja de 15 de junho de 1855.
Esta página não foi escrita do zero. Ela é a leitura de um acervo — e cada afirmação tem de onde ser conferida.

Protásio Lopes Pessoa. 1ª edição, comemorativa do sesquicentenário da elevação de Tefé à categoria de cidade. Manaus: Editora Novo Tempo, 2005. 213 p.
Nascido em Tefé em 14 de abril de 1932, professor de História, licenciado em Português e em Estudos Sociais, vice-presidente da Academia de Letras, Ciências e Artes de Tefé. O livro foi realizado pela Prefeitura Municipal de Tefé em parceria com a ALCAT.
A obra foi digitalizada, transcrita página a página e reorganizada por tema no acervo histórico municipal. As referências de página que aparecem nas legendas remetem à página impressa do livro.
As fontes que sustentam o livro, e portanto tudo que nesta página se refere a até 2005.
Tudo que nesta página é posterior a 2005 — população, clima, ensino, meio ambiente.
As imagens históricas desta página vêm das 213 páginas do livro de Protásio Lopes Pessoa, digitalizadas e catalogadas no acervo histórico municipal. Cada uma passou por correção de perspectiva, limpeza de fundo e recorte antes de ser publicada aqui; o tratamento é de legibilidade — nenhuma imagem foi colorizada, recomposta ou alterada em seu conteúdo.
As fotografias antigas reproduzidas no livro foram cedidas por Esther Guedes Rezala e pelo arquivo histórico da Prelazia de Tefé, organizado pelo padre Antonio Jansen. Antonio Mota e Brigido Filho assinam parte das fotografias.
As duas pranchas de naturalista — a castanheira e o pirarucu com o boto — são ilustrações criadas para este portal com apoio de inteligência artificial, no estilo das pranchas de expedição científica do século XIX. São desenhos decorativos: não retratam nenhum lugar, prédio ou pessoa de Tefé.
A bandeira e o escudo são reproduções vetoriais dos símbolos oficiais, publicadas no Wikimedia Commons: a bandeira por Giro720, sob licença Creative Commons BY-SA 3.0, e o escudo por BrCaLeTo, em domínio público.
SEDECTI — Secretaria de Desenvolvimento, Ciência, Tecnologia e Inovação de Tefé
O levantamento que deu origem a esta página é da SEDECTI — a digitalização do acervo, a transcrição página a página do livro de Protásio Lopes Pessoa, a conferência dos dados atuais em fonte oficial, o tratamento das imagens históricas e a redação de todo o texto que se lê aqui.